Sou contra imposto do pecado e reoneração da cesta básica, diz Tereza Cristina

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A Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, se diz totalmente contrária as propostas do Ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o aumento da tributação da cesta básica e o chamado “imposto do pecado” sobre álcool, cigarro e açúcar.

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‘Tenho certeza que o ministro Paulo Guedes não quer causar inflação’, afirma a Ministra da Agricultura
Propostas do ministro Paulo Guedes (Economia), o aumento da tributação da cesta básica e o chamado “imposto do pecado” sobre álcool, cigarro e açúcar são ideias reprovadas pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina.
“Tenho certeza de que o ministro Paulo Guedes não quer causar inflação”, afirmou ao programa de entrevistas da Folha e do UOL em estúdio compartilhado em Brasília.
“Tem que ter uma avaliação mais profunda. É um debate que não é [resolvido] do dia para a noite, e temos muita dúvida sobre isso”, disse.
A ministra diz que se posiciona, a princípio, contra a medida. Mas ressaltou que os debates internos vão continuar para tentar se chegar a um “denominador comum”.
“A agricultura vai mostrar os seus estudos e os seus pontos para a equipe econômica.”
A ministra também minimizou as concessões feitas pelo Brasil aos Estados Unidos na área agrícola sem aquele país conceder nada em troca na área. Para ela, às vezes é preciso recuar para depois ganhar.
Também reconheceu que o governo pode ter falhado na política ambiental, disse que a liberação de agrotóxicos aumenta a produtividade das plantações e ainda defendeu o projeto de lei recém-criado pelo governo para liberar cultivo em área indígena.

Reoneração da cesta básica

Isso tem de ser discutido, ter uma avaliação mais profunda.
Tenho certeza de que Paulo Guedes não quer causar inflação. Pelo contrário, o governo vem trabalhando com a inflação cada vez mais baixa e estamos diminuindo os juros.
As equipes técnicas já começaram uma discussão para depois chegar a um ponto comum. É um debate que não é do dia para a noite. Temos muita dúvida sobre isso.
Então, a Agricultura vai mostrar seus estudos e seus pontos para a equipe econômica. Não [concordo, a princípio].

Imposto do pecado

A princípio, sou contra. O açúcar no momento é muito complicado [de tributar a mais], e o álcool também.
Sou contra porque está sobrando açúcar no mundo, com preço muito defasado. O etanol, queremos implementar esse mercado.
Então, isso vai ser discutido no governo para que possamos chegar a um denominador comum e ver o que vai progredir dentro dessas taxações.
O cigarro já tem uma taxação altíssima. Tem a cultura do fumo, muito importante no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e exporta muito.
Então teria de ver o impacto em cada um desses setores.

Agricultura em terra indígena

Sou a favor. A vontade dos povos indígenas tem de prevalecer, isso está na Constituição.
Hoje eles estão cerceados. Existem alguns que não querem, porque têm a cultura deles e são mais coletores de sementes, caçadores. [Mas] tem outros que precisam estar na agricultura ou em outros setores que queiram explorar.
O que não podemos é deixar os indígenas na situação de indigência em que muitos estão. O governo quer não que todos plantem, mas abrir a possibilidade para os que querem. Imagino que a Funai tenha sido ouvida [para a elaboração do projeto].

Desmatamento na Amazônia

[O governo] pode ter falhado, sim. Às vezes, as falhas vêm porque não temos uma agilidade na legislação. Isso [perda de cobertura vegetal do país] não pode ser debitado na conta deste governo.
Estamos achando soluções para preservar, porque a biodiversidade brasileira é importantíssima. E muito mais para o Brasil do que para o mundo. Porque nossa economia pode ser fortalecida com isso.
Agora, você vai passo a passo. Você não consegue fazer do dia para a noite a regularização fundiária, e ela é a base de toda essa estratégia.

Liberação de agrotóxicos 

De jeito nenhum [o Brasil é mais leniente na comparação internacional].
O Ministério da Agricultura não tem interesse nenhum em aprovar mais ou menos porque a lei diz o seguinte: cada produto a ser aprovado tem de ser menos tóxico do que os que já estão no mercado.
Então, ao inverso do que dizem, se você aprovar mais produtos, teoricamente você está aprovando produtos que são menos tóxicos do que aqueles que estão aí no mercado.

Expansão dos transgênicos

O Brasil produz 90% da sua soja transgênica. Ela tem maior produtividade e, com isso, você desmata menos por precisar de áreas menores. O mundo que quer a soja não transgênica tem de pagar um pouco mais pela convencional, que tem produtividade menor.
Com os indígenas é a mesma uma coisa, eles têm o direito de fazer essa opção. Estamos abrindo a possibilidade para eles terem as mesmas opções que os agricultores normais.

Embaixada em Jerusalém

O presidente é que vai direcionar o caminho. Ele é o presidente, formula as políticas, e cabe aos ministros trabalhar dentro de um alinhamento.
E aí temos de ver as consequências que isso pode trazer para a Agricultura, colocar em cima da mesa. Tenho de colocar para ele o ponto de vista da Agricultura, do que pode vir, do que pode acontecer.
Não [vamos tentar] demover o presidente, mas [devemos] ter um diálogo único. [Devemos] chamar a embaixada, nosso chanceler.

Coronavírus

É um problema que a gente ainda não conhece bem. A China conteve um pouco o ir e vir das pessoas.
É claro que, com esse número de pessoas e o fluxo de negócios [sob impacto], a agricultura mundial, e não só a brasileira, pode ser afetada.
Navios [podem ter] dificuldade de descarregar. Mas não acredito que eles vão deixar de comprar. Milhões de pessoas precisam se alimentar.

Cota de trigo americano

A cota de trigo americano [importada sem tarifa foi elevada] nesse ano [2019], mas foi algo acordado pelo Brasil na rodada do Uruguai. Tem mais de 20 anos isso.
O Brasil disse que ia fazer e não fez. Era um ponto que eles chamam de nervoso ou ponto irritante, como se chama no comércio internacional. O país tem de cumprir o que assinou nos acordos.

Cota de etanol americano

Isso, sim, foi um gesto de boa vontade [o aumento na cota de importação de etanol americano sem tarifa]. Mas não foi o que eles queriam, porque eles querem ter um comércio de etanol livre com o Brasil.
O país tem de se impor no mercado mundial, mas, às vezes, você tem de recuar um pouquinho para depois ganhar. Acho que o Brasil tem muito a ganhar com essa relação. Pode ter certeza de que a briga tem de ser de igual para igual. O que não podemos ter é submissão. E isso, na agricultura, a gente não vem tendo.

Veto dos EUA à carne brasileira

Tenho certeza de que eles [técnicos americanos] voltaram bem impressionados com o que viram agora [em visita recente ao Brasil]. Eles estão nos trâmites burocráticos para nos dar uma resposta sobre a visita e sobre o relatório que foi levado daqui para lá.

Acordo Mercosul-UE

Vamos ter várias eleições na Europa. Cada um [dos candidatos] fala para seu público. E os agricultores na Europa são um setor importante em quase todos os países. As discussões serão intensas, mas acho que o bom senso vai prevalecer e esse acordo será ratificado.
Aqui é uma questão do governo, a estratégia de quando será colocado no Congresso e o trabalho de esclarecimento. Acho que [será aprovado aqui] em um ano a partir da ratificação.

Privatização da Embrapa

Acho muito difícil [ser privatizada, mesmo no futuro].
A gente pode mudar a figura jurídica para que a Embrapa possa receber os recursos dos royalties das sementes que lança, de tudo o que faz. Para esse recurso ficar na própria Embrapa e realimentar a pesquisa. Hoje vai para o Tesouro.
[Além disso] a Embrapa precisa se remodelar. O mundo hoje anda muito rápido e precisamos colocar a Embrapa em um tamanho que é possível. [Alguns centros de pesquisa podem ser] fechados ou mudar de atividade. Isso está sendo feito [com base em] estudos.
Fonte: Mauronegruini