Reino Unido impõe mudanças nas 4 gigantes de auditoria após série de escândalos

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A autoridade responsável por supervisionar a contabilidade no Reino Unido concedeu às empresas Deloitte, EY, KPMG e PwC quatro anos para dividir seus negócios de auditoria e consultoria. A diretriz é um esforço para melhorar os relatórios corporativos por elas produzidos após uma série de escândalos financeiros.

Saiba mais sobre o assunto abaixo:

O Financial Reporting Council (FRC, ou Conselho de Relatórios Financeiros) britânico disse em comunicado no último dia 6 de julho, que as quatro grandes empresas, chamadas de “Big 4”, têm até 23 de outubro deste ano para apresentar um plano para implementar a “separação operacional”, que deverá ser concluída até junho de 2024.
De acordo com o comunicado, a medida tem o objetivo de garantir a “entrega de auditorias de alta qualidade no interesse público” sem depender do apoio financeiro do restante da empresa. As diretrizes exigem que os parceiros de auditoria sejam pagos de acordo com os lucros de suas práticas, que terão sua própria estrutura de governança e contas de lucros e prejuízos.
A notícia chega apenas algumas semanas depois de a alemã Wirecard (WCAGY) pedir insolvência devido a um buraco de US$ 2 bilhões em suas contas. O escândalo levantou questões sobre como a EY, a companhia responsável por auditar a empresa de pagamentos alemã, pode ter ignorado as irregularidades contábeis por tanto tempo e levou a uma nova investigação no setor. Os investidores confiam nos auditores para garantir que as contas de uma empresa sejam um verdadeiro reflexo de seus ganhos.
Um porta-voz da FRC disse que o anúncio desta segunda-feira não tem relação com o caso Wirecard. Segundo ele, a autoridade já havia planejado publicar as diretrizes, que são o resultado de várias análises independentes sobre a qualidade e a eficácia da auditoria e dos relatórios corporativos no Reino Unido.
“Hoje a FRC deu um passo importante na reforma do setor de auditoria”, disse o CEO da FRC, Jon Thompson, em comunicado, acrescentando que a agência reguladora planeja introduzir “outros aspectos do pacote de reformas ao longo do tempo”.
Os novos princípios buscam abordar preocupações de que o crescimento da receita de consultoria tenha reduzido o foco na qualidade da auditoria. Os números da FRC mostram que as taxas de auditoria representaram apenas um quinto das 10,95 bilhões de libras (US$ 13,7 bilhões ou R$ 73 milhões) das “Big 4” em faturamento total no Reino Unido em 2018.
As diretrizes se aplicam somente às Big 4, já que elas são responsáveis por mais de 95% das auditorias das empresas do FTSE 350, de acordo com o porta-voz da FRC. Outros grandes players no mercado do Reino Unido incluem a BDO Global e a Grant Thornton.
As Big 4 saudaram o anúncio, que, segundo elas, ajudará a restaurar a confiança no setor. “A Deloitte tem sido consistente no apoio à essa reforma. Continuamos comprometidos em desempenhar nosso papel de entregar mudanças que abranjam a qualidade da auditoria, melhorem as opções e restaurem a confiança”, afirmou Stephen Griggs, vice-CEO da Deloitte UK, em comunicado.
A separação operacional das empresas de auditoria do Reino Unido é “apenas o primeiro passo na jornada para restaurar a confiança” nas empresas britânicas, como afirmou o chefe de auditoria da KPMG no Reino Unido, Jon Holt. Ele acrescentou que é necessário um “pacote ambicioso” de reformas em todo o cenário corporativo, incluindo o esclarecimento das responsabilidades dos diretores em relação ao sucesso ou fracasso de uma empresa.
“Compartilhamos os objetivos da FRC de melhorar a qualidade e a confiança na auditoria, resiliência do mercado e a atratividade contínua da profissão como carreira, e estamos comprometidos em desempenhar nossa parte”, afirmou a PwC em comunicado. A EY não respondeu a um pedido de entrevista.

Falhas na auditoria

As quatro gigantes da auditoria foram atingidas por uma série de escândalos contábeis corporativos em todo o mundo nos últimos anos, levando a pedidos de reforma na sua atuação. A legislação da UE introduzida em 2016 restringiu os serviços de consultoria que os auditores poderiam fornecer aos clientes, mas isso não acabou com as falhas de supervisão.
No Reino Unido, as quatro empresas enfrentaram uma investigação parlamentar nas auditorias e em trabalhos de consultoria feitos para a Carillion, uma empresa de construção que faliu em 2018. A KPMG, que fazia a auditoria externa da Carillion, foi objeto de uma investigação da FRC.
Na Índia, a PwC foi banida em 2018 de auditar empresas de capital aberto por dois anos, após uma investigação do órgão regulador do mercado de ações sobre o colapso da Satyam Computer Services, que revelou ter falsificado suas contas.
Na África do Sul, a KPMG perdeu dezenas de clientes ao se constatar que a empresa não havia detectado a corrupção generalizada envolvendo empresas pertencentes à família Gupta. E-mails vazados mostraram um relacionamento pessoal próximo da empresa com o então presidente Jacob Zuma para ganhar contratos com o governo e saquear os cofres do Estado. A família Gupta negou as irregularidades.
A KPMG auditou empresas da família por 14 anos, cortando laços em abril de 2016. Oito sócios renunciaram em 2017 após uma investigação interna da KPMG International sobre as deficiências da unidade sul-africana. Também na África do Sul, a Deloitte enfrentou sondagens regulatórias sobre suas auditorias na Steinhoff, uma varejista de móveis em falência, e na financeira African Bank.
(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).
Fonte: CNN Brasil